Etnografia e Metodologia

Universidade: Unicamp
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Disciplina:
Ano:
Professora: Maria Filomena Gregori
Prova

Questão:
Tendo por referência o texto de Malinowski: “Tema, método e objetivo desta pesquisa” e os artigos discutidos em sala de aula de Heloísa Pontes e de Roberto da Matta, escreva sobre os principais objetivos da pesquisa etnográfica como também alguns desafios práticos e metodológicos.

O principal objetivo do etnógrafo, segundo Malinowski, é compreender a visão do povo estudado sobre o seu próprio mundo, oferecendo uma descrição clara e nítida da constituição social, distinguindo as leis e regularidades de todos os fenômenos culturais; para isso ele aponta regras metodológicas a serem seguidas para que essa outra visão da realidade se constitua em um mundo visível e palpável.
O método constitue-se em primeiramente inserir-se no ambiente de vivência da tribo pesquisada e permanecer nele em tempo integral para assim permitir-se observar todos os acontecimentos corriqueiros, que vão além das cerimônias e festas, para com sensibilidade compreender a verdadeira forma que se pretende configurar essa cultura. Estando presente incessantemente no local de estudo é possível ver além das aparências, ver o cotidiano, a essência que se mostra quando sua própria presença passa despercebida. Presença esta que age no local de estudo como uma pedra jogada em um lago, que atormenta a normalidade, mas que depois de passado um tempo para de agitar as águas.
Em segundo lugar é necessário ao pesquisador um bom domínio teórico sobre a antropologia, para levar a maior quantidade de problemas quanto possíveis a campo, para comprovar teorias e hipóteses com os fatos encontrados ou ter a flexibilidade necessária para refutá-las quando essas se mostrarem empiricamente errôneas, também para ter as idéias e metodologias necessárias para que um bom e reconhecido trabalho científico seja feito.
Em terceiro lugar deve-se ter a metodologia necessária para acumular dados e colher informações que sirvam ao pesquisador, para que com todo esse seu material, que deve abranger a maior variedade de experiências e fatos, chegar a teorias gerais por meio da indução. Essa fase do método deve ser dividida em três partes para a constituição de um corpo com esqueleto, carne, sangue e espírito, que represente a verdadeira vida social e cultural que é levada na tribo. O esqueleto é construído com base nos dados científicos coletados que devem sempre ser discriminados de forma precisa e clara para que não haja dúvidas sobre sua procedência e para que se ganhe a confiança do leitor de que o que está sendo realizado é um estudo com rigor científico. Devem-se transformar em material de base todas as informações, ocorridos e eventos, enfim, o maior número possível de informação a respeito da tribo para assim estudá-la. A carne e o sangue, de outro modo, constituem-se de fatos que são classificados por Malinowski como os imponderáveis da vida real, e com razão, pois são fatos que só serão desvendados se observados com a visão de alguém que está integralmente no ambiente, tendo a sensibilidade de sentir suas nuances, e qual descrição dependerá da habilidade do etnógrafo de dar plasticidade à realidade observada, de sua capacidade de deixar de lado todo o aparato científico e mergulhar no mundo à sua volta, sentindo-o e vendo-o como ele realmente o é, seu cotidiano, seus ritos, suas formas de organização, suas regras sociais, seus minuciosos costumes e seu peculiar modo de viver. O espírito, de outra maneira, seria a maneira típica dos indivíduos daquela sociedade pensarem e sentirem, tomando-os como membros da cultura na qual foram forjados.
Já Roberto da Matta dá ênfase a três outros estágios que se passam na pesquisa de campo: A primeira fase, inundada de conhecimento teórico-científico cru, etéreo, abstrato, seco e valorizado; a segunda fase, o período prático, no qual as únicas preocupações são pragmáticas, de quanto de arroz levar a que remédios buscar; e a terceira fase da pesquisa, quando se está efetivamente no local, a que se encontra entre a realidade e o livro. Mas seu foco é em sua crítica a antropologia científica que nega a parte humana desse saber, chamada por ele de anthropological blues, formado pelas sensações, pelas recordações, pela ligação da qual é impossível fugir, que se constituiria da parte subjetiva, tão criticada por Malinowski que segue o estilo durkheiniano ao afirmar que o etnógrafo não deve dar ênfase no que o toca, o surpreende, mas sim deve anular-se. Ao contrário, Roberto da Matta afirma que essa tão rechaçada contribuição humana é fundamental à pesquisa, pois a antropologia não é uma ciência de uma mão só, como bem comprova empiricamente Heloísa Pontes ao perceber que o trabalho de campo depende e muito da troca, que dela surge o convívio social necessário para que se obtenha não só os dados desejados, mas para que se veja a realidade do objeto de estudo como ela é. Não basta portanto esperar a boa vontade dos indivíduos que constituem aquele sistema para conseguir o trabalho, é necessário ganhar a confiança, ser merecedor de sua atenção. Isso não significa que o antropólogo deixe de ser um cientista, ele continua a interferir o menos possível na realidade objetivada, mas com o discernimento para distinguir o quanto se deve avançar e contribuir. Como afirma Roberto da Matta, a antropologia é uma ponte entre dois universos culturais distintos, mas para que essa ponte seja estabelecida é preciso que as duas partes a construam, pois: “..o homem não se enxerga sozinho… ele precisa de outro como seu espelho e seu guia.”
Além disso, mesmo que o pesquisador continue a tentar apagar-se ainda sim o outro não fará o equivalente, irá estudá-lo e irá se reconhecer nele, estabelecendo essa ligação íntima que tanto é evitada racionalmente pelo pesquisador, mas que ao o mesmo ser remetido à sua própria cultura com toda a força do sofrimento de seu isolamento que lhe é causado pela pesquisa, tenta encontrar nesse novo meio suportes emocionais.
Se ser antropólogo é transformar o extraordinário em familiar e vice e versa, e para que haja essa alteridade é preciso entrar no universo do outro desligando-se do seu próprio, o pesquisador como ser humano tem a necessidade de criar alguns laços mesmo que se force a não o fazer.
As dificuldades da pesquisa etnográfica consistem então em não apenas na clareza teórica e no conhecimento científico, tão arduamente conseguidos; nas limitações corporais e costumeiras, advindas de sua própria cultura e costumes; na organização metodológica, ordem necessária; na sensibilidade da percepção, talento inerente e dificilmente desenvolvido; no deciframento de regras estabelecidas mas não postuladas que pairam, que não se encontram em nenhum indivíduo mas no conjunto de todos eles; mas também a consciência e o auto controle para saber o quanto interferir e como, como ligar-se e desprender-se; sempre objetivando a compreensão do mesmo universo, dividido pela interpretação de que cada cultura o faz, pela visão de que cada indivíduo tem sobre seu mundo e que o antropólogo deseja compreender.

por R

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