Antropologia e Imagem – resenhas

Universidade: Unicamp
Instituto de Artes
Disciplina: Antropologia e Imagem
Ano: 2o semestre 2005
Professor: Fernando de Tacca
Resenhas: filme – A Cidade e Suas Ruínas; Texto – Fotografar para Descobrir, Fotografar para Contar de Milton Guran

A Cidade e Suas Ruínas – Um filme etnográfico com muito de sentimentos embauzados

As cenas se passam em Porto Alegre, sul do Brasil, e o assunto principal não é alguém, ou um conjunto de alguéns, mas algo. Uma casa. Os últimos que estiveram ali foram uma família, uma família inteirinha provou o sabor da efemeridade da vida e descontinuou-se na última geração, abandonando a eternidade da memória.
A casa, porém, não estava abandonada às traças, às moscas, nem aos ratos ou às folhas, muito menos às invasões. Não era sabido se o proprietário ainda a possuía, pois ele desaparecera na vastidão do mundo. E havia essa moça, que cuidava da casa. Ela conhecia tudo, cada curva, cada quina, cada foco de vida antiga, mas não morava lá, só passava um tempo, era responsável pela sua memória, já que casas são vulneráveis à ação humana.
O homem nunca casara e pouco se importava, pensava apenas em si, no presente e no futuro, no emprego e na tecnologia. Vivera naquela casa a vida toda com seus pais, seus pais com seus avós e assim por diante. Um dia, após algum tempo da morte de seu último parente, resolveu mudar-se. Recebera alguma proposta de emprego em outra cidade, talvez. Ou então apenas enjoou de onde morava. Ou ainda, simplesmente sentiu que era preciso recomeçar a vida e foi embora, sem rumo, sem muitas certezas. O fato é que não se importara com o que deixara para trás; pegou carteira, carregador de celular, uma blusa pro frio e mandou-se! Sem deixar telefone, e-mail, endereço ou nome e sobrenome. Sumiu na poeira.
A casa, por sua vez, virou um museu de alegrias, intimidades, amor, negócios. Virou um objeto vivo e morto, ou mais, um objeto etnográfico, quase um objeto arqueológico.
Suas estruturas estavam ruindo, água infiltrada nas paredes, o mato do quintal crescendo sem muito controle. Porém, em seu interior, as marcas de um cotidiano, a personalidade de seus antigos moradores, representada pela interpretação dos gostos, das possíveis atitudes, como organização. Os hábitos, tudo isso marcado nos objetos deixados para trás, como fotos, vitrola, papéis, livros. Uma vida inteira abandonada, simplesmente arquivada dentro de uma casa, a qual torna-se objeto de estudo de alguém.
Quem disse que antropologia e história não se misturam?

Milton Guran – Fotografar para Descobrir, Fotografar para Contar

No referido texto, Milton Guran trata das questões práticas e teóricas da utilização da fotografia como instrumento de pesquisa, abandonando quaisquer abordagens artísticas em seu foco. Para tal análise, divide o texto em três partes explicativas:
Fotografar para descobrir e para entender
A fotografia guarda um lapso de tempo, destaca um aspecto particular da realidade, fornecendo detalhes que constituem o material do saber etnológico. Ela pode ser muito útil nas relações sociais onde os indivíduos se comunicam por linguagem gestual, e também estimula os comentários dos informantes.
A fotografia como compreensão de relações, sociedades, é extremamente importante, pois capta trocas gestuais de olhares, silêncio, expressões faciais, gestos, coisas que não são enquadráveis no discurso científico, porém de enorme importância na compreensão de uma sociedade.

A fotografia eficiente na pesquisa de campo
A fotografia é uma escolha de enquadramento no espaço e no tempo. Como ela é realizada num espaço de tempo muito curto, faz-se um reconhecimento antecipado da cena em questão, já que o que é visto não é mais foto, uma vez que já terá passado o momento do click.
A escolha do momento na fotografia é uma característica determinante quando se trata de pesquisa de campo. Como o processo se conclui em uma fração de segundos e é feito sobre um momento intuído, não há como compartilhar a imagem, ou o enquadramento da realidade, como é possível no caso do vídeo, onde há um plano contínuo que permite a troca de idéias entre aquele que opera a câmera e o que dirige a pesquisa. Portanto, o emprego da fotografia como instrumento de pesquisa deve ser feito pelo próprio pesquisador, sem que, no entanto, este abandone sua visão antropológica para dar lugar completo à sensibilidade e à intuição, as quais também não devem deixar de existir.
Na página 160, Guran afirma: “a função da fotografia é a de destacar um aspecto de uma cena a partir do qual seja possível se desenvolver uma reflexão objetiva sobre como os indivíduos ou os grupos sociais representam, organizam e classificam suas experiências e mantêm relações entre si.”. Porém, o papel mais importante da fotografia como método de observação não é apenas expor aquilo que é visível, mas sim tornar visível o que nem sempre é visto.

Fotografar para contar
“A fotografia feita para contar é aquela que visa especificamente integrar o discurso, apresentar as conclusões da pesquisa, somando-se às demais imagens do corpus fotográfico e funcionando sobretudo na descrição e na interpretação dos fenômenos estudados.”. (página 167).
Para que a fotografia seja bem utilizada nas conclusões da pesquisa, deve haver uma articulação entre a linguagem da imagem e a escrita de modo que uma complete e enriqueça a outra.
Nessa articulação a fotografia pode suceder ao texto, colocando-se como explicação complementar ou como exemplo de um aspecto descrito. Aqui a fotografia participa da descrição do universo físico da pesquisa, propiciando uma descrição mais completa e detalhada de situações complexas.
A fotografia pode também funcionar como ponto de partida para uma reflexão, onde a reflexão antropológica passa a se desenvolver a partir da imagem. Esse conceito de função da fotografia é definido como ilustração interpretativa. Assim como Guran, cito Attané e Langewiesche: “sua utilização [da fotografia como ilustração interpretativa] implica em um vai-e-vem constante entre a reflexão antropológica e os dados apresentados na imagem.”.
E fico por aqui.

por F

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