Documentário sobre Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre

Universidade: Unicamp
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Disciplina: Antropologia II – Cultura e Práticas Sociais
Ano: 2o semestre 2004
Professor: John Manuel Monteiro
Resenha do documentário sobre Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre

Etnia e cultura, raça e cultura. Ambas se igualaram no momento em que se debateu a superioridade ou a inferioridade de um povo. No Brasil colonial os negros eram inferiores, a raça negra era inferior devido à escravidão (não eram considerados gente, em grande parte pela Igreja, e por isso foram vistos como mercadoria) e, junto a ela, por conseqüência, a cultura negra. Contrário a isso, o documentário chega à conclusão de que a cultura africana é superior à cultura européia por sua diversidade, apesar da realidade atual da época dita anteriormente. Seguindo essa lógica, as florestas tropicais seriam superiores às florestas temperadas, pois aquelas têm maior diversidade na fauna e na flora. Não há superioridade entre os povos pelo simples motivo de que não há definição lógica e coerente para superioridade cultural ou biológica; ser mais complexo não significa necessariamente ser superior. A cultura e os costumes de uma sociedade são diferentes dos de outra; se para uma é comum matar os pais antes de estes chegarem à velhice, para outra é caso de pena de morte. “Cada grupo de seres humanos, em diferentes épocas e lugares dá diferentes significados a coisas e passagens da vida aparentemente semelhantes.” (Omar R. Thomaz, A antropologia e o mundo contemporâneo: cultura e diversidade, in A temática indígena na escola, 1998). Portanto, quando as culturas européia e africana entraram em convivência nos primeiros séculos de Brasil, apesar do sentimento de superioridade (etnocentrismo) ao enfrentar o diferente, o que havia era uma troca de valores, de costumes, de crenças, enfim, uma troca cultural entre seres humanos que compartilhavam pensamentos, paixões, impulsos, apetites e aversões comuns a ponto de perceberem consciente ou inconscientemente que eram Homens relacionando-se com Homens.
Dessa forma, os europeus relacionavam-se primeiramente com índias brasileiras e, após, com africanas escravas, fazendo da sociedade da época do tráfico negreiro um prato cheio para psicólogos de plantão e transformando as sociedades indígenas a seu bel prazer: tendo filhos com índias, contagiando-os com doenças, comerciando manufaturas entre outros.
A relação entre homem europeu e mulher indígena ou negra deu-se com maior facilidade devido aos desejos sexuais do homem branco que, no caso dos índios, além de não estar acostumado a ver pessoas vivendo quase nuas em sociedade, não levou mulheres européias junto a si para o Brasil. No caso das negras, acredito que o desejo sexual dos homens, os quais já estavam com suas mulheres ao seu lado, não tinha um motivo muito explícito. Talvez pela excentricidade do africano, talvez por motivos outros. O fato é que em ambas as épocas a mulher foi escrava de qualquer tipo de desejo dos homens e, de uma forma extremamente machista e antiquada, o documentário mostra tais relações sexuais acima descritas como culpa única da mulher, insinuando que o corpo feminino é naturalmente um forte chamariz aos desejos masculinos e, se a mulher se veste de maneira a deixar à mostra partes do corpo, é porque deseja ser mais que cortejada. Como o próprio Gilberto Freyre disse, “Os índios foram submetidos ao cativeiro e à prostituição. A relação entre brancos e mulheres de cor foi a de vencedores e vencidos.”. Há possibilidade de o homem branco se relacionar sexualmente com negras pelo fato de serem estas escravas. A escravidão dá o título de coisa à pessoa e, por alguma fantasia pervertida, o escravocrata gostava de se relacionar com pessoas-objetos por sentir-se poderoso, enquanto que a esposa branca entediava-se dentro de casa e segurava seu ciúmes e ódio.
Voltando ao início, não se pode igualar etnia e cultura conceitualmente, porém elas podem relacionar-se, assim como o homem europianizado, ou até mesmo os verdadeiros europeus, relacionava-se com mulheres de outras raças. A etnia é inerente ao Homem, enquanto que a cultura é algo que se aprende na sociedade em que se é criado. Tanto é assim que se pode falar em etnias que se aculturam a partir de um preconceito cultural. Assim que os africanos, ou descendentes de, largam mão de seus costumes, abandonam sua identificação com formas culturais africanas, assimilando o “mundo” europeu, são aceitos na nova sociedade brasileira que estava se formando na época. Porém não é correto dizer que esse fato era geral no Brasil, pois até hoje temos religiões como o candomblé, atuantes no Brasil. Não é correto dizer que o negro e sua cultura desapareceram completamente.

Bibliografia:
Ribeiro Thomaz, Omar. A antropologia e o mundo contemporâneo: cultura e diversidade, in A temática indígena na escola, 1998
http://www.iuperj.br/Lusofonia/papers/Arthur%20Gomes%20e%20Vera%20Calheiros.pdf

por F

4 respostas para Documentário sobre Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre

  1. JOILSON AMORIM disse:

    GOSTARIA DE PESQUISAR DOGRE A CULTIRA INDIGÊNA DO LIVRO CASA GRANDE E SENZALA DE GILBERTO FREIRE. E SOBRE CULTURA EM GERAL(SÃO DOIS TRABALHOS).

  2. F disse:

    Olá Joilson.
    Esses seus trabalhos são pra alguma matéria específica? Eu pergunto porque dentro da Antropologia existem milhões de livros tanto sobre Casa Grande e Senzala, quanto sobre cultura em geral. Se formos considerar mais os livros que não são de antropologia, vc vai ter aí simplesmente uma biblioteca inteira pra ler!

    Então se o seu trabalho for um pouco mais específico ajuda um pouco pra gente recomendar livros pra vc…

    Um autor chamado Adam Kuper escreveu livros sobre cultura e é um dos autores essenciais para se entender a antropologia, vc pode começar por ele.

    Como eu não sei o que vc está buscando, o que posso fazer por agora é recomendar alguns autores da Antropologia Cultural, também conhecida como Cuturalismo:
    – Franz Boas
    – R. Lowie
    – A. Kroeber
    – Ruth Benedict
    – Margaret Mead
    – Gregory Bateson

    Vc também pode procurar por:
    – Clifford Geertz
    – Pierre Bourdieu

    Espero que isso ajude…
    Qualquer coisa tamo aí!

  3. F disse:

    Ah, sim, esqueci desses:
    achei uns sites que talvez possam te ajudar.

    Este daqui mostra em tabela um pouco da história da antropologia: http://www.fflch.usp.br/da/vagner/antropo.html

    Este link da wikipedia te dá uma lista de antropólogos de acordo com a escola antropológica da qual fazem parte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_antropólogos

    E este te diz um pouco sobre etnologia, onde talvez vc encontre algo para ler a respeito de cultura indígena:
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Etnologia

    Eu recomendaria Lèvi-Strauss… mas ele não tem muito a ver com Casa Grande e Senzala

  4. Joana Chagas disse:

    adorei encontrar este site. Olha, será que vc teria o resumo do livro as viagens pelo rio amazonas e rio negro, de alfred russeau wallace?

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