Estrutura e Processos Sociais – V. Turner, E. Leach, M. Sahlins, P. Bourdieu

Universidade: Unicamp
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Disciplina: Antropologia III: Estrutura e Práticas Sociais
Ano: 1o semestre 2005
Professor: Ronaldo de Almeida
Prova Final

Questão 2- Como a mudança social foi pensada nas formulações estruturais de V. Turner e E. Leach.

2- Ao pensar a mudança no sistema social, E. Leach e V. Turner se contrapõem a antropólogos sociais ingleses que vieram na esteira de Radcliffe-Brown, cujo pensamento funda-se na tradição durkheimiana. O conceito de estrutura social de tais antropólogos é um modelo ideal que não ocorre na prática, o que o torna difícil de relacionar com o trabalho empírico. A estrutura é pensada num determinado período de tempo e espaço sem considerar o passado e o futuro, tendo assim um equilíbrio estável teórico estruturalmente. Através disso, seria possível a comparação entre sociedades, tomando por base o conceito de estrutura social discutida independentemente do conteúdo cultural.
No entanto, E. Leach pensa os sistemas sociais em um equilíbrio instável.
Enquanto que modelos conceituais de sociedade são necessariamente modelos de sistemas em equilíbrio, as sociedades reais não estão em equilíbrio. Isso se dá, pois as estruturas sociais se expressam sob a forma cultural, uma representação imprecisa. As sociedades reais não estão em equilíbrio como nos conceitos sociológicos, científicos. Quando as estruturas sociais se expressam sob a forma cultural, a representação é imprecisa e, segundo E. leach, essas inconsistências na lógica da expressão ritual são necessárias para o bom funcionamento dos sistemas sociais.
As sociedades reais situam-se num ambiente em constante mudança, não num ambiente fixo; a instabilidade das mudanças políticas – as quais E. Leach usa como exemplo o sistema gumsa, gumlao e chan, no qual gumlao e chan variam entre si através do gumsa – são mudanças estruturais de um sistema total mais amplo, este sim um equilíbrio estrutural.
Tomando como exemplo as incongruências que existem no sistema político gumsa da Alta Birmânia, uma mistura de gumlao e chan, podemos ter uma visão da compreensão dos processos de mudança social.

“A estrutura social em situações práticas consiste num conjunto de idéias sobre a distribuição de poder entre pessoas e grupos de pessoas”
(Leach, p.68 )

Através de interesses e desejo consciente ou inconsciente de obter poder é que se dá a incessante transição gumlao-chan e vice-versa. O indivíduo que se defrontar com uma escolha de ação irá usar tal escolha para adquirir poder, procurando reconhecimento, mudando sua linhagem utilizando-se do casamento para tal ou buscando um cargo maior. Dessa forma, é possível que a estrutura anteriormente gumlao ou gumsa torne-se chan ou vice-versa.
Portanto, o equilíbrio instável a que E. Leach se refere remete a uma mudança estrutural inserida na própria estrutura em equilíbrio das sociedades. Ou seja, há a estrutura social kachin, que existe num equilíbrio constante. Porém, dentro dessa estrutura ocorrem mudanças sociais, tais quais gumlao e chan.
Da mesma maneira, V. Turner pensa uma variação estrutural na própria estrutura ao discorrer sobre a liminaridade.
A liminaridade é relativa aos ritos de passagem. A sociedade, por sua vez, os elabora como uma recolocação da ordem diante de uma mudança.
Diferentemente de E. Leach, que vê ritual e mito como uma única coisa expressada de maneiras diferentes, V. Turner vê o ritual como mais que uma representação do mito, o vê como uma representação em si mesmo. Através dos rituais, a sociedade vivencia e dramatiza dimensões da vida social e reflete sobre si mesma.
Quando V. Turner diz que o rito tem uma significação em si mesmo, está pensando nele como um sistema social de passagem. Basicamente, há a estrutura social em si, um momento de passagem que é explicado por V. Turner pela liminaridade e, em muitas das vezes, a volta à estrutura.
A liminaridade é um estado de antiestrutura; as condições culturais vigentes são afastadas, a ordem social estruturada fica suspensa, e dá-se lugar a uma nova ordem de classificações. Nessa nova ordem de classificações encontra-se a situação de communitas.
A sociedade elabora os ritos de passagem como uma transição social e cultural rica em símbolos liminares, situados fora do tempo estrutural. Simbolicamente, a submissão à comunidade no estado liminar tem função purificadora.
Em relação à sociedade, na communitas não há hierarquia, todos são iguais, a indiferenciação social é reforçada. O social se define por elementos em oposição: quem está no alto deve experimentar o que significa estar no baixo e vice-versa: as distinções de classe e posição são homogeneizadas. Porém, os indivíduos homogeneizados se submetem em conjunto à autoridade de anciãos, guias do ritual: os indivíduos são oprimidos a uma condição uniforme para serem remodelados e enfrentarem uma nova situação de vida. Portanto, se for pensado as communitas em relação a si próprias, percebe-se hierarquia, demonstrando assim que esse conceito é relacional nos ritos de passagem.
Assim sendo, pode-se afirmar que a mudança social foi pensada por V. Turner nos conceitos de liminaridade e communitas. Opostos à estrutura social, esses conceitos não representam uma ruptura da estrutura; representam um momento de marginalidade estrutural previsto dentro dela própria.
A liminaridade representa uma mudança social na medida em que prepara os indivíduos para uma nova condição de vida. Cria-se uma brecha na estrutura, que será fechada. Retorna-se à estrutura, porém houveram transformações nos membros daquela sociedade, os quais passarão a viver sob novas condições culturais, porém dentro da mesma estrutura social.

Questão 3- relacione os conceitos de habitus e de estrutura da conjuntura nos esquemas teóricos de Bourdieu e Sahlins, e quais são suas contribuições para as teoria estruturalistas.

3- Marshall Sahlins, em Ilhas de História, pensa a dicotomia, fixada por outros autores, entre estrutura e história, usando como base exemplar o advento da chegada do capitão Cook às ilhas havaianas.
Para melhor compreender o acontecido com o capitão Cook, M. Sahlins parte da relação entre estrutura e evento. Um evento, segundo o autor, não é apenas um acontecimento do fenômeno, é aquilo que lhe é dado como interpretação, e adquire significância histórica apenas quando apropriado pelo esquema cultural (caso da experiência do capitão Cook com a cultura havaiana. O evento da chegada do capitão Cook justamente na época do Makahiki foi apropriado pela cultura e pela estrutura havaiana).
Buscando a relação entre estrutura e história, M. Sahlins conceitua estrutura da conjuntura como “a realização política das categorias culturais em um contexto histórico específico, assim como se expressa nas ações motivadas dos agentes históricos, o que inclui a microssociologia de sua interação.” (p. 15).
Essa noção, enquanto sociologia situacional do significado, pode ser aplicada à compreensão geral de mudança cultural.
Com isso, M. Sahlins quer dizer que um conjunto de relações históricas, enquanto reproduzem categorias culturais, dão a elas novos valores, novos significados. A estrutura de uma sociedade, ao reagir com eventos históricos, ou seja, eventos apropriados pela cultura daquela mesma sociedade, confere novos significados àquele evento, modificando a estrutura de certa forma, pois, se as categorias culturais adquirem novos valores funcionais (os significados culturais são alterados), a estrutura é transformada. Como exemplo disso, temos o retorno inesperado de Cook ao Havaí. Como o advento de sua chegada, já havia sido incorporado pela cultura havaiana, seu retorno, quando deveria ter ido embora, causou uma mudança estrutural na sociedade. Assim como os havaianos criaram uma música que contava a história da vinda de Lono na época do ancestral do rei que reinava na época de Cook, poderiam ter feito uma nova música contando a história de Cook como Lono, pois ambas aconteceram de maneiras diferentes apesar de fazerem parte do mesmo mito. A participação de Cook e dos ingleses no ritual – que poderíamos chamar de liminar, antiestrutural, segundo a teoria de V. Turner – havaiano foi fundamental para marcar uma diferença na estrutura dali em diante.
Essa interferência externa dos ingleses na cultura havaiana só foi possível, pois a estrutura, a cultura havaiana é historicamente ativa. Ou seja, a sociedade havaiana é uma sociedade performativa, ela assimila-se às circunstâncias, interage com outros sistemas simbólicos, opostamente a uma sociedade prescritiva.
Cada grupo, chefes e povo, reagiram de uma determinada maneira, diferenciada um do outro, à chegada dos estrangeiros na ilha. Cada qual reagiu de acordo com suas autoconcepções e interesses, o que constitui o habitus, a consciência cultural de cada grupo. O interesse do povo era de encontrar um senhor. E o interesse do chefe principal era enfrentar seus rivais, os deuses, os ingleses.
O Habitus segundo Pierre Bourdieu pode ser influenciado também por grupos sociais, porém, ele é produto de uma educação primária. É um sistema de disposições duráveis, como, por exemplo, família e escola, que designa uma maneira de ser. O habitus é inconsciente, é uma propensão inferida à pessoa pelas estruturas do tipo particular de meio em que ela vive. Ele diferencia o indivíduo dos demais, pois este se marca e demarca em sua vida. É uma prática irrefletida por ser uma predisposição da pessoa.
O conceito de habitus pode ser considerado histórico se pensarmos que a sociedade em que vivemos é historicamente uma sociedade de dominação, onde os dominados têm menores probabilidades de alcançarem suas aspirações, pois seu habitus não permite. Indivíduos de um grupo social dominado só podem alcançar aquilo que está dentro de suas possibilidades de habitus, a não ser que criem predisposição em cima de predisposição, pois o habitus orienta a ação do indivíduo, mas não a determina.
O conceito de habitus rompe com o padrão estruturalista de autores como Lévi-Strauss, pois se dá pela experiência, pela prática; identifica-se com o interacionismo simbólico, enquanto que o estruturalismo é objetivista e não pensa no plano da experiência. P. Bourdieu, em sua teoria geral, propõe o conhecimento praxiológico como superação das duas correntes de pensamento: estruturalismo e interacionismo, unindo-as ao combinar estrutura com ação.
Portanto, a relação entre o conceito de habitus de P. Bourdieu e estrutura da conjuntura de M. Sahlins é que, ao desfazer a dicotomia anteriormente existente entre cultura e história, M. Sahlins percebe que a relação cultura/história se dá no plano da ação, o que tem aproximação com a teoria da prática de P. Bourdieu, onde ele se demonstra insatisfeito com o objetivismo estruturalista.
Sahlins diz que a história é ordenada culturalmente e a cultura é ordenada historicamente. A síntese desses contrários se dá nas ações criativas das pessoas envolvidas. Por um lado, a cultura pode ser historicamente alterada na ação, ou seja, os Homens repensam seus esquemas convencionais porque as circunstâncias da ação não se conformam aos significados que lhe são atribuídos. Por outro, a cultura pode ser historicamente reproduzida na ação. Ou seja, os indivíduos dão sentido aos objetos partindo das compreensões preexistentes em sua cultura, o que nos leva à consciência cultural dos chefes e do povo havaiano ao reagirem de determinadas formas à presença de estrangeiros. O habitus de cada grupo.

Bibloigrafia:
– Leach, Edmund. “Parte III-Variabilidade Estrutural”. In Sistemas Políticos na Alta Birmânia. São Paulo, Edusp, 1997.
– Turner, Victor. “Liminaridade e Communitas“. In: O processo social – estrutura e antiestrutura. Petrópolis, Vozes, 1874.
– Bourdieu, Pierre. “A gênese dos conceitos de habitus e de campo”. In: O poder simbólico. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 7a ed., 2004.
– Bourdieu, Pierre. “Esboço de uma teoria da prática” e “Gosto de classe e estilos de vida”. In: Pierre Bourdieu (org. Renato Ortiz). São Paulo, Ática, 1983.
– Sahlins, Marshall. “La Pensée Bourgeoise: a sociedade ocidental como cultura”. In: Cultura e Razão Prática. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1979.
– Sahlins, Marshall. “Introdução”; “Capitão James Cook ou o Deus Agonizante”; “Estrutura e História”. In: Ilhas de História. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.

por F

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