Objeção a Descartes

Universidade: Unicamp
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Disciplina: Redação Filosófica I
Ano: 1o semestre 2005
Professor: Marcos Nobre
Texto sobre uma objeção feita às Meditações de Descartes

Na objeção feita a Descartes: “já que duvidais de tudo, como podeis dizer que dormi algumas vezes?”, a que se refere este texto, tem-se necessariamente uma contradição, independente de esta estar em Descartes ou no objetor.
A objeção diz que Descartes afirmou algo, ou seja, que algumas vezes dormia, quando pretendia duvidar de tudo. Nesse caso o objetor questiona o conjunto do objetivo cartesiano ao dizer que Descartes se propôs a duvidar de tudo, mas não o fez.
Assim, caso a objeção proceda e Descartes tenha, em algum momento dentro da Primeira Meditação, afirmado alguma coisa (neste caso que dormia), ele cai em contradição com seu próprio método de modo que tudo posteriormente edificado sobre ele desmoronará. Mas há a possibilidade de a objeção proceder de uma interpretação equivocada da Primeira Meditação por parte do objetor. Desse modo, se a objeção for falaciosa, Descartes permanece fiel ao seu método e, em momento algum dentro da Primeira Meditação afirma algo, tampouco que dormia.
Para compreender, no entanto, a falsidade da objeção, precisa-se retomar, ou mais precisamente, percorrer o caminho do pensamento cartesiano na Primeira Meditação a fim de detectar em que momento ocorre o equívoco. Detectado o momento, este deve ser analisado para que se possa definir se a questão realmente remete à má interpretação do objetor ou à afirmação de Descartes.
Descartes tem como intuito estabelecer algo de firme e constante nas ciências. Em vista disso, pretende duvidar de tudo, a começar por suas antigas opiniões, a fim de encontrar algo que seja indubitável. Este algo indubitável será considerado uma verdade, uma certeza. Ele toma consciência de que em sua vida, desde muito no princípio, recebeu muitas falsas opiniões como verdadeiras e deveria tentar desfazer-se de todas elas, começando tudo novamente. Assim, Descartes toma a liberdade de destruir em geral todas suas antigas opiniões por meio da dúvida.
Para alcançar uma certeza, não acredita ser necessário provar que todas as outras opiniões são falsas. Mesmo porque seria um trabalho interminável descaracterizar cada opinião. Para Descartes, uma certeza deve ser necessariamente indubitável, de modo que qualquer opinião minimamente passível de dúvida não pode ser uma certeza. Portanto, é considerada falsa, rejeitável. Dessa forma, não é necessário demonstrar a falsidade de uma opinião para que não seja uma certeza, basta mostrar que ela é dubitável.
Descartes dedica-se inicialmente aos princípios sobre os quais suas antigas opiniões estavam apoiadas, pois, se os princípios forem dubitáveis, as opiniões apoiadas sobre eles também o serão. Assim, os princípios dubitáveis devem ser rejeitados, bem como as coisas que sobre eles se edificam, pois não podem ser considerados certezas.
“E, para isso, não é necessário que examine cada uma em particular, o que seria um trabalho infinito; mas, visto que a ruína dos alicerces carrega necessariamente consigo todo o resto do edifício, dedicar-me-ei inicialmente aos princípios sobre os quais todas as minhas antigas opiniões estavam apoiadas.”
Dito isso, todas suas antigas opiniões, por estarem fundadas “em princípios tão mal assegurados” e incertos, são passíveis de dúvida e, portanto, devem ser rejeitadas. Descartes diz que essas opiniões foram recebidas por meio dos sentidos. Mas esses sentidos algumas vezes já o enganaram, e é prudente não confiar naquilo que alguma vez enganou. Aquilo que alguma vez enganou é dubitável; se for dubitável, não pode ser considerada uma certeza. Dessa forma não é possível encontrar algo de firme e constante nas opiniões, as quais foram recebidas por meio dos sentidos.
Porém, que os sentidos nos enganem não é algo tão evidente. Em alguns momentos isso se torna nítido, como por exemplo o céu refletido na água ou uma fonte de luz refletida no espelho, de modo que os sentidos nos mostram que a coisa está ali, quando na verdade não está. Em outros momentos, contudo, a evidência não é tão clara, não se podendo, então, razoavelmente duvidar.
“Por exemplo, que eu esteja aqui, sentado junto ao fogo, vestido com um chambre, tendo este papel entre as mãos e outras coisas desta natureza. E como poderia eu negar que estas mãos e este corpo sejam meus?”
Duvidar de coisas que não se pode razoavelmente duvidar a princípio aparenta ser insensatez, tal como os loucos que acreditam ser reis quando não o são, ou terem corpo de vidro, quando na verdade são Homens. No entanto, a dúvida cartesiana, ao contrário da insensatez do cérebro entorpecido, é uma dúvida metodológica e que tem por fim encontrar uma certeza indubitável. Assim, ela é prévia, o caminho para se encontrar uma certeza; universal, abrange todas as opiniões, está no processo para duvidar de tudo; e radical, considera falso o que é duvidoso.
Uma vez estabelecidos os critérios da dúvida cartesiana, Descartes aplica-a aos princípios de suas antigas opiniões. Dentre elas, a opinião geral de é homem e, por conseguinte, algumas vezes dorme. Da opinião de que é homem e de que algumas vezes dorme, segue-se a opinião de que representa algumas vezes em sonho coisas mais ou menos verossímeis do que os insensatos em vigília o fazem. Muitas vezes acreditou estar fazendo coisas que faz em vigília quando estava dormindo e sonhando. Essas imagens se faziam tão verossímeis a ponto de no momento do sonho os sentidos fazerem acreditar estar realmente vivenciando-as. Porém, os sentidos não são confiáveis, como já foi dito, por serem dubitáveis. Se muitas vezes acreditou-se estar em vigília quando na verdade estava sonhando, não há qualquer indício que garanta a distinção entre a vigília e o sono, pois se os sentidos enganam durante o sono, nada garante que não enganem também durante a vigília. Uma vez que não há critérios para distinguir a vigília do sono, não se pode afirmar que se dorme (e sonha), tampouco que não se dorme.
No entanto, o argumento do erro dos sentidos tem fim em si próprio, não sendo assim possível Descartes duvidar, através dele, de que é homem e de que dorme. Porém, essa não é a principal preocupação de Descartes, visto que ele abandona o argumento do erro dos sentidos por não haver saída em si mesmo e busca a dúvida, a princípio, nas coisas sensíveis.
“Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. E, detendo-me neste pensamento, vejo tão manifestamente que não há quaisquer indícios concludentes, nem marcas assaz certas por onde se possa distinguir nitidamente a vigília do sono, que me sinto inteiramente pasmado: e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo.”
Posto isso, infere-se que a objeção resulta de uma má interpretação por parte do objetor, pois a dúvida cartesiana é um processo: existe a decisão de duvidar, entretanto Descartes precisa encontrar razões para duvidar. Além disso, para que algo seja posto em dúvida, é necessário partir dele. Portanto, Descartes toma a opinião de que é homem e de que dorme para descobrir como poderia razoavelmente duvidar dela.

por F

2 respostas para Objeção a Descartes

  1. Enrica Lombardi disse:

    Deveria ser mais especificado o assunto quase não compreendi o que estava se falando.

  2. The information mentioned in the article are some of the greatest available

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s