Desprovincializando a Sociologia – A contribuição pós-colonial de Sergio Costa

Universidade: Unicamp
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Discilpina: Antropologia e Teoria Social Contemporânea
Ano: 2o semestre 2007
Professoras: Guita Grin Debert e Heloisa A. Pontes
Resenha: Costa, Sergio. “Desprovincializando a Sociologia – A contribuição pós-colonial”. In Revista Brasileira de Ciências Sociais vol.21, n.60, fevereiro de 2006.

Discute as contribuições dos estudos pós-coloniais para a renovação da teoria social contemporânea e sua importância para ciências sociais e para a sociologia em particular. Boa parte da crítica pós-colonial tem como destinatário a teoria da modernidade. Os estudos pós-coloniais não desestabilizam as ciências sociais, podendo mesmo enriquecê-las. Colocam alternativas epistemológicas com três blocos de questões: crítica ao modernismo como teologia da história, busca de um lugar de enunciação híbrido pós-colonial e critica a concepção de sujeito das ciências sociais.
Estudos pós-coloniais: desconstrução dos essencialismos, referência epistemológica crítica às concepções dominantes de modernidade.
A abordagem pós-colonial, sobre a evidência de que toda enunciação vem de algum lugar, sua crítica ao processo de produção do conhecimento científico que, ao privilegiar modelos e conteúdos próprios ao que se definiu como a cultura nacional nos países europeus, reproduziria em outros termos a lógica da relação colonial.
O colonial vai além do colonialismo e alude a situações de opressão diversas, definidas a partir de fronteiras de gênero, étnicas ou raciais.
Os estudos pós-coloniais buscam explorar fronteiras, produzir uma reflexão além da teoria. Há uma relação entre estudos pós-coloniais e três correntes ou escolas contemporâneas: pós-estruturalismo (Derrida e Foucault – caráter discursivo social), pós-modernismo – varia conforme a abordagem tomada: categoria empírica que descreve a descentralização das narrativas e dos sujeitos contemporâneos, e estudos culturais – a diferença destes para o pós-colonialismo é cronológica.
Para o pós-colonialismo a transformação social e o combate a opressão devem ocupar lugar central na agenda de investigação.
“O orientalismo” de Said é considerado um manifesto de fundação do pós-colonialismo. O orientalismo tratado caracteriza uma maneira particular de percepção da história moderna e tem como ponto de partida o estabelecimento a priori de uma distinção binária entre Ocidente e Oriente. A inspiração de Said é a crítica foucaultiana à episteme das ciências humanas – a produção de conhecimento atende a um princípio circular e auto-referenciado, de sorte que os novos conhecimentos construídos sobre uma base de representação determinada reafirmam as premissa inscritas nesse sistema de representações. Sendo assim, o orientalismo é um modo estabelecido e institucionalizado de produção de representações sobre uma determinada região do mundo. O oriente no livro expressa uma fronteira cultural e definidora de sentido entre um nós e um eles, numa relação que produz e reproduz o outro como inferior.
Stuart Hall generaliza o caso do orientalismo, mostrando que a polaridade entre ocidente e o resto do mundo encontra-se na base da constituição das ciências sociais. Seu ponto de partida é a noção de formação discursiva – Foucault -, na qual o discurso não se confunde com ideologia. Ele enumera os recursos que ao longo do processo de expansão colonial vão nutrindo e constituindo o discurso west/rest: conhecimentos clássicos, fontes bíblicas e religiosas, mitologias e relatos de viajantes – contituem a polaridade west/rest, civilizado x selvagem, adiantado x atrasado etc. Estes binarismos tornam-se ferramentas para pensar e analisar a realidade. O discurso west/rest se torna um dos fundamentos da sociologia moderna que tomam as normas sociais, as estruturas e os valores das sociedades “ocidentais” como parâmetro universal. Essas especificidades das sociedades não ocidentais passam a figurar como ausência e incompletude em face ao padrão moderno. Para Hall a incorporação do binarismo pela sociologia moderna pode ser visto em Weber e Marx, que de formas distintas fraseiam o movimento interno de sociedades definidas como não ocidentais de gramática implicitamente comparativa que toma as sociedades européias como padrão. O binarismo pode ser encontrado também na base narrativa histórica centrada no estado-nação ocidental e que reduz a história moderna a uma ocidentalização paulatina e heróica do mundo. Essas partes representadas como opostas e separadas na verdade se completam histórica e semanticamente. Tudo o que é diverso no resto do mundo é codificado como um ainda não existente, uma falta a ser compensada por meio da intervenção cabível em contexto de cada época histórica – dominação, intervenção humanitária, ajuda no desenvolvimento etc. As disciplinas no campo das ciências sociais reproduzem a perspectiva colonial.
A desconstrução wets/rest é um termo comum que une diferentes autores chamados pós-coloniais. O pós-colonial, a desconstrução da polaridade que se constitui historicamente no âmbito da relação colonial, mas que se perpetua mesmo depois de extinto o colonialismo, como modo de orientar a produção do conhecimento e a intervenção política. Os autores têm a tarefa de mostrar que a polaridade constrói e legitima uma relação assimétrica irreversível entre o ocidente e seu outro – atribuição de uma condição de superioridade ontológica e total, imutável, essencializada – e a polaridade west/rest é inócua do ponto de vista cognitivo.
O esforço de desconstrução do binarismo segue percursos diversos. O intelectual pós-colonial busca entender a dominação colonial como cerceamento da resistência mediante a imposição de uma episteme que torna a fala do subalterno silenciosa e desqualificada. O pós-colonialismo deve promover a desconstrução desses essencialismos diluindo as fronteiras culturais legadas tanto pelo colonialismo como pelas lutas anticoloniais.
A desconstrução faz uma reinterpretação da história moderna e a releitura pós-colonial busca reinserir o colonizado na modernidade.
A tentativa de dar plausibilidade à idéia de histórias que apresentam interpenetrações e se determinam mutuamente toma corpo nos conceitos de histórias partilhadas e modernidade entrelaçada. Randeria busca expressar interdependência e simultaneidade dos processos de constituição das sociedades contemporâneas e destacar a representação dicotômica das intersecções históricas nas representações modernas – contextualizar as transformações observadas num feixe de relações interdependentes entre as diferentes regiões do mundo.
Em contraposição às construções identitárias homogeneizadoras que buscam aprisionar e localizar a cultura apresenta-se a idéia da diferença, articulada contextualmente nas lacunas de sentido entre fronteiras culturais. A diferença é construída no processo mesmo de sua manifestação, ela não é uma entidade ou expressão de um estoque cultural acumulado, é um fluxo de representação articuladas nas entrelinhas das identidades externas totalizantes e essencialistas.
LENNAN: Os estudos pós-coloniais alvejam o calcanhar de Aquiles da sociologia de três formas: deslegitimam certa sociologia do subdesenvolvimento, mostrando que ela insiste, ainda na representação de um outro inferior e carente; atingem a sociologia multiculturalista ou pluralista quando mostram as idéias de um espaço imparcial de representação de diferenças culturais pré-existentes e implausível; recaem sobre o conjunto de disciplinas das ciências sociais vinculadas ao estilo de teorização generalizante, inadequado para captar a dinâmica social.
Roteiro de apresentação das alternativas epistemológicas pós-coloniais, a partir dos três momentos destacados anteriormente: crítica à leitura teleológica da história moderna, busca de um lugar híbrido de enunciação e a articulação do sujeito descentrado.
Os autores pós-colonialistas constroem um marco analítico que permite ao mesmo tempo estudar a relação entre sujeito e discurso e identificar espaço de criatividade do sujeito. Essa contribuição dos estudos permanece ímpar e seguramente ajuda as ciências sociais a finalmente reencontrar seu vigor criativo.

Bibliografia:
– Costa, Sergio. “Desprovincializando a Sociologia – A contribuição pós-colonial”. In Revista Brasileira de Ciências Sociais vol.21, n.60, fevereiro de 2006.

por Rz

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